Troca de comandantes não altera postura de não envolvimento político das Forças Armadas, diz ex-ministro Santos Cruz

BRASÍLIA (Reuters) – Ex-ministro do governo Jair Bolsonaro e um dos mais respeitados generais brasileiros, Carlos Alberto dos Santos Cruz avalia que, independentemente da troca nos comandos militares feita pelo presidente, nada vai mudar na postura das Forças Armadas em relação ao não envolvimento em questões políticas.

“Não muda nada, nada. Esse incidente serviu até para mostrar como deve ser reforçada a coesão militar. Vai reforçar que essa união é necessária para resistir a esses ataques”, disse o militar da reserva em entrevista à Reuters.

Sobre os possíveis novos comandantes, que precisam ser indicados entre aqueles no topo da carreira em cada uma das forças, Santos Cruz diz que “são pessoas com a mesma formação dos que saíram, da mesma força e da mesma escola” e não agiriam diferente dos comandantes que deixaram o cargo.

Depois de demitir o general da reserva Fernando Azevedo e Silva do Ministério da Defesa e trocá-lo pelo também general da reserva Walter Braga Netto, que ocupava a Casa Civil, Bolsonaro decidiu exonerar os três comandantes das forças –Edson Pujol, do Exército, Ilques Barbosa, da Marinha, e Antônio Carlos Moretti Bermudez, da Aeronáutica. A decisão foi comunicada aos comandantes por Braga Netto, em uma reunião na terça-feira.

Apesar dos três terem, na noite anterior, decidido colocar os cargos à disposição, havia uma expectativa nas forças de que apenas Pujol deixasse de fato o comando, já que a relação difícil dele com Bolsonaro já era conhecida. A demissão dos três, através de um intermediário, pegou a todos de surpresa e causou um incômodo que ficou explícito na carta que o comandante da Aeronáutica escreveu a seus subordinados.

No texto, Bermudez frisou que havia sido comunicado da exoneração e que tinha orgulho de servir a uma “instituição de Estado”. Em nenhum momento citou o presidente, a não ser para falar que havia sido dele a decisão de demiti-lo.

Santos Cruz disse que a reforma ministerial feita por Bolsonaro –que envolveu mudanças em outras pastas– não é surpreendente, por ser uma questão política, mas lembrou que os comandantes das forças não são parte da “camada política” do governo.

“Os comandantes não fazem parte da camada política, são operacionais, de dentro de suas instituições, com quase 50 anos de serviço, testados e selecionados em todos os níveis hierárquicos que passaram e escolhidos entre os melhores. Esse tipo de saída é uma falta de consideração pessoal, institucional, funcional, desrespeito às Forças Armadas”, disse o general.

“O afastamento foi feito sem explicação por parte do governo, sem explicação para o público.”

A maneira como isso foi feito, diz, dá força para as informações de que Bolsonaro estaria tentando uma maior influência política sobre as Forças Armadas.

“Se começa a achar que é um problema de tentativa de fazer um alinhamento político das Forças Armadas. As forças não têm que ter alinhamento político com governo. Elas têm uma destinação constitucional. Apoiam as políticas públicas quando são chamadas, mas não podem ser arrastadas para as disputas político-partidárias”, afirmou.

De acordo com fontes ouvidas pela Reuters, essa pressão pela politização das forças foi a principal razão da demissão de Azevedo e Silva. Discreto, o ex-ministro da Defesa evitava grandes declarações políticas e resistiu à troca no comando do Exército, exigida por Bolsonaro.

O presidente cobrava de Pujol, no comando do Exército, uma postura de defesa de seu governo e de suas medidas, o que o general sempre se recusou a fazer. Em mais de uma ocasião, deixou claro que a política não deveria entrar nos quartéis, e a fala foi vista como um recado direto ao presidente.

Perguntado sobre a postura que Braga Netto deve adotar como ministro da Defesa –apesar de ser discreto como ministro da Casa Civil, o general da reserva tinha um papel muito mais político que Azevedo e Silva–, Santos Cruz lembrou que um ministro dentro do Palácio do Planalto é uma situação. Outra diferente, na avaliação dele, é o cargo de ministro da Defesa.

“Uma coisa é ser ministro dentro do Palácio do Planalto. Outra coisa é o ministro da Defesa, que faz interface do governo com as Forças Armadas na sua ação institucional”, disse o general da reserva.

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