Mais cortes de juros ou fim do ciclo? Ata divide economistas sobre próximos passos do Copom

SÃO PAULO – A ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) dividiu os economistas do mercado. Enquanto XP Investimentos e Goldman Sachs consideraram que o documento foi mais dovish (favorável a uma política monetária mais estimulativa), o Morgan Stanley e a Gauss viram a ata como mais hawkish (favorável a um aperto monetário para conter a inflação). Afinal, quais indicações dadas pelo BC foram mais fortes?

Na opinião de Alex Agostini, economista da Austin Ratings, não há uma resposta única para esse questionamento, visto que as interpretações da ata dependem de como foi entendido o comunicado da decisão por cada analista.

“Quem analisou o último comunicado com um viés de que o ciclo estava se interrompendo momentaneamente para que mais cortes viessem assim que passadas as incertezas econômicas atuais considerou essa ata como mais hawkish“, avalia.

O próprio Agostini, por outro lado, está do lado de XP e Goldman, entendendo que o texto foi dovish ao deixar claro que a política monetária atual deve ser estimulativa, mas que a trajetória de baixa nos juros teve que ser interrompida para que o Banco Central avalie melhor como evolui a recuperação da economia brasileira. Como a própria ata ressaltou, os efeitos de um corte na Selic demoram a ser sentidos na economia.

“Considerando os efeitos defasados do ciclo de afrouxamento iniciado em julho de 2019 [cortes de juros já efetuados], o Comitê vê como adequada a interrupção do processo de flexibilização monetária [redução da taxa básica]”, está escrito no documento.

“A taxa de juros deve ficar estável pelo menos até setembro, porque a partir daí o BC vai ter todos os dados referentes a 2019 consolidados, uma boa leitura do efeito do ciclo de cortes atual e já vai ter nas mãos indicadores que mostrem os reais impactos do [surto de] coronavírus na demanda da China”, explica Agostini.

A equipe da XP entendeu que com a inflação perto de 3% há grandes possibilidades de corte. “A ata deu grau de manobra caso os dados não cumpram as expectativas.”

Bruno Marques, gestor de fundos multimercados da XP Asset, defende que os membros do Copom possam ter se arrependido do tom tão categórico do comunicado na última reunião e aumentaram a margem de manobra no texto da ata. “Política monetária é gestão de riscos e o BC tem que estar aberto para poder agir se os dados não vierem como ele espera”, disse em entrevista à Bloomberg.

Alberto Ramos, economista para América Latina do Goldman Sachs, apontou que o novo texto deixou o Copom em modo de observação. “Na ata, o Copom argumenta que, dadas as diversas fontes de incertezas, é importante interromper o ciclo de queda da Selic para poder avaliar melhor o nível de ociosidade da economia”, escreve a equipe do banco americano.

Para o Goldman, o texto da ata mostra que não houve um comprometimento irrevogável de não cortar mais as taxas de juros, mas um momento de reavaliação sujeito às alterações no andamento da economia. “Se a inflação hoje favorável surpreender ou dados econômicos frustrantes forem divulgados, o Copom poderá voltar a vislumbrar uma redução de juros.”

Alberto Kurimori, sócio da Blueline Asset Management, diz que o plano parece ser de estabilidade de juros no momento, mas o próximo movimento, em alguns meses, ainda pode ser de nova queda.

O Goldman Sachs, em relatório, apontou que se a projeção para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) – medidor oficial de inflação – cair abaixo de 3,75%, que é a meta da autoridade monetária a partir do ano que vem, os membros do Copom podem se sentir mais confortáveis para reduzir juros.

Já Agostini projeta que Copom irá elevar a Selic a partir de setembro, pois imagina que a atividade econômica estará em um patamar melhor, sem a “dicotomia de dados” citada pelo Banco Central.

Os membros do Copom entendem que a evolução do mercado de trabalho e da produção não estão no mesmo ritmo, o que obriga os responsáveis pela administração da política monetária a observar a evolução dos indicadores macroeconômicos de oferta e demanda.

“Emprego e renda devem já ter crescido, ao passo que o centro da meta de inflação será menor em 2021 [saindo de 4,25% ao ano para 3,75%]. O BC deve ajustar a taxa de juros a essa nova realidade”, diz o economista da Austin.

Copom hawkish

Na contramão, a equipe de análise do Morgan Stanley argumenta que a adição do comentário sobre a possibilidade de uma ociosidade menor do que o esperado e o sinal claro de que a baixa inflação de 2020 não é vista como um problema apontam para um tom mais hawkish em relação ao comunicado.

A visão da Gauss é parecida, apontando que o Banco Central deve considerar ao menos duas reuniões para ver os próximos passos de política monetária. “A ata veio alinhada ao comunicado com pontos mais hawkish“, disseram os analistas.

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