Caso Gabigol mostra que, na negociação de atletas, todos os lados podem ganhar

Não é fácil controlar financeiramente um clube de futebol. Associações políticas com objetivos de curto prazo, clubes empresa que precisam se valorizar para serem vendidos, torcedores e imprensa cobrando contratações. Tudo joga contra e o esforço na busca pelo equilíbrio é enorme.

Para que este processo seja menos doloroso e complexo é necessário que os principais interessados nos clubes, seus torcedores, entendam a dinâmica financeira do negócio, e sejam capazes de minimamente entender o que se passa nas finanças e como os clubes se organizam para atenderem expectativas de conquistas esportivas sem quebrarem os clubes. Pensando nisso trarei ao longo das próximas colunas alguns temas relacionados ao fair play financeiro europeu, e como ele impacta as contas dos clubes e seus comportamentos.

Para iniciar falaremos de compra e venda de atletas.

Toda negociação possui dois lados. Ninguém negocia sozinho, e quando se chega a uma conclusão é porque as condições satisfizeram ambos.

No futebol não é diferente, especialmente quando tratamos de contratações de atletas. Após a implantação do Fair Play Financeiro todos passaram a controlar aquisições e vendas baseados nos impactos que elas geram nos balanços.

Vou tentar explicar de maneira simplificada os movimentos numa contratação e numa venda, e como impactam os clubes dentro do Fair Play Financeiro.

Imagine um clube contratando um atleta por 100,00 num contrato de 5 anos. Porém, o clube vendedor quer receber o valor em 2 anos, ou seja, 50% em 1 ano e outros 50% em 2 anos.

O registro do atleta no balanço será o seguinte:

Ativo Valor Passivo Valor
Intangível 100 Contas a Pagar 100

Assim, o Contas a Pagar será pago em 2 anos (metade ao final do primeiro e a outra metade ao final do segundo), com o dinheiro saindo do caixa do clube. Mas no registro do atleta no Intangível o comportamento é diferente.

O atleta assinou um contrato de 5 anos, e isso faz com que o valor do Intangível seja amortizado ao longo desse período, na proporção de 1/5 (20%) ao ano. Ser “amortizado” significa que 1/5 do valor será lançado anualmente no demonstrativo de resultados como um custo/despesa.

Numa indústria tradicional esta regra serve para reduzir o impacto do investimento no resultado final, pois se a contratação fosse lançada numa única vez geraria prejuízo, que gera impactos no capital, diminuindo o retorno. Em tese, um investimento tem um período de maturação, e é justo impactar de acordo com esse período.

No futebol a característica é outra, já que o atleta deveria trazer resultados imediatos. Assim, o efeito é simplesmente diluir impactos da contratação no resultado.

Veja o exemplo, considerando que o clube tem 200 de receitas anuais e 120 de custos e despesas:

  1. Se o investimento fosse todo lançado no ano de aquisição
  Ano 1 Ano 2 Ano 3 Ano 4 Ano 5
Receitas 200 200 200 200 200
(-) Custos e Despesas 120 120 120 120 120
(-) Amortização 100        
= Lucro – 20 +80 +80 +80 +80

 

  1. Se amortizado ao longo de 5 anos
  Ano 1 Ano 2 Ano 3 Ano 4 Ano 5
Receitas 200 200 200 200 200
(-) Custos e Despesas 120 120 120 120 120
(-) Amortização 20 20 20 20 20
= Lucro +60 +60 +60 +60 +60

 

A soma final é a mesma, mas o impacto acumulado só será visto no final, pois os o prejuízo inicial foi sendo recomposto ao longo dos anos.

Para fins de Fair Play Financeiro vale a conta final, considerando a amortização ao longo dos anos. Então, quando um clube contrata um atleta faz as contas do impacto que ela trará no período. Mas o impacto não fica apenas na contratação e inclui os salários pagos. Ou seja, imagine um atleta que receberá 15,00 por ano. O impacto anual no resultado será de 20,00 da amortização mais 15,00 dos salários.

Daí o clube recebeu uma proposta ou por questões técnicas decidiu vender o atleta. Para definir o valor mínimo a receber o clube fará algumas contas considerando o período decorrido desde a contratação e o impacto no resultado. Até porque o valor máximo já é a multa, para os casos em que está definida contratualmente.

O clube europeu trabalhará para gerar lucro contábil na operação, e isso é fundamental na conta do Fair Play Financeiro, que limita prejuízos a € 5 milhões na soma dos 3 últimos anos. Imagine então que aquele atleta que custou 100,00 teve uma proposta de 70,00 dois anos depois. Como fica a conta?

 

Valor de Contratação: 100

(-) Amortização de 2 anos: 20 x 2 = 40

Saldo no Ativo: 60

 

————————————–

 

Valor de Venda: 70

(-) Saldo do Ativo: 60

= Lucro de 10

 

 

O atleta contratado por 100 teve amortização de 40 em 2 anos (20+20).

Assim, o valor atual registrado no Intangível é de 60.

 

Se vendeu por 70 algo que estava registrado por 60, então o lucro foi de 10.

 

 

Mas não é só isso. Como o atleta recebe 15 anuais, o clube vendedor considerará que terá um alívio de outros 45 no período (3 anos restantes de contrato), de forma que o resultado final será de 10 (lucro na venda) + 45 (salários que não serão pagos nos próximos 3 anos) = 55. Com isso o clube se programa para ocupar a economia com outro atleta.

O resultado da venda, imaginando que não haja reposição de atletas será o seguinte:

Ano da venda (2xx0) Ano seguinte (2xx1) Ano 3 (2xx2)
 

Receitas: 200

Custos/Despesas: (120)

Lucro na Venda: 10

Lucro Final: 90

 

Receitas: 200

Custos/Despesas: (105)

 

Lucro final: 95

 

Receitas: 200

Custos/Despesas: (105)

 

Lucro final: 95

 

A partir daí o clube pode pensar sua estratégia de contratações, especialmente quando o lucro na venda é grande. Quer ver um exemplo atual? Philippe Coutinho, do Bayern/Barcelona.

 

 

 

O registro do atleta é o seguinte:

 

 

 

 

O Barcelona pagou € 156,2 milhões e assinou contrato de 5 anos e meio.

Ao final do 1º ano contábil (Jun18) o clube amortizou € 15,6 milhões, reduzindo o valor de registro para € 140,6 milhões.

 

Ao final da atual temporada, após 2 anos e meio de contrato, o valor de registro de Coutinho será de € 84,4 milhões. Ou seja, para evitar efeitos contábeis negativos o Barcelona precisa vender o atleta por € 85 milhões pelo menos.

 

Se vender por € 85 milhões registrará lucro de € 600 mil, mesmo que o prejuízo financeiro tenha sido de € 71,2 milhões, comparado ao valor de aquisição.

 

 

Vamos então fazer uma conta simulando a contratação de Gabigol pelo Flamengo e o impacto para a Inter de Milão.

– Inter contratou atleta em Agosto de 2016 por supostos € 25 milhões, por 5 anos;

– O suposto valor de salários era de € 3 milhões anuais;

– Logo, a conta para a Inter em termos de Fair Play Financeiro era: € 5 milhões de amortizações + € 3 milhões de salários, totalizando € 8 milhões em despesas anuais;

– Daí o Flamengo contrata o atleta por supostos € 17 milhões após 3 anos e meio de registro dele na Inter, sendo que no período ele atuou algum tempo no Benfica, Santos e Flamengo e a Inter não pagou salários;

Vamos às contas no balanço da Inter:

  Ago17 Ago18 Ago19 Jan20 Ago20
(-) Custos e Despesas (3,0) (1,5)      
(-) Amortização (5,0) (5,0) (5,0) (2,5) (7,5)
(+) Valor de Venda         17,0
Saldo do Atleta (8,0) (6,5) (5,0) (2,5) 9,5

 

Para o clube italiano o efeito prático de vender Gabigol pelos € 17 milhões foi um lucro de € 9,5 milhões no resultado final de 2020. Considerando que o clube teria contrato com o atleta por mais 1 ano e meio e que não recebeu propostas melhores que esta, os € 17 milhões na ótica do vendedor foram importantes na composição do lucro do período, visto que na mesma janela foram contratados, Moses, Young e Eriksen.

“Ah, mas eles pediam € 25 milhões e venderam por € 17 milhões”. Claro. Ninguém começa uma negociação esperando que o vendedor aceite o primeiro preço. Ainda mais quando você diz que não quer o atleta, insiste em negociá-lo e seu treinador prefere um veterano de 33 anos (Giraud) ou um garoto de 17 (Sposito) como opções de banco.

Veja, não é uma questão de criticar o Flamengo e sua negociação, que para o clube esportivamente falando foi ótima, afinal, manteve um ídolo da torcida e um atleta que foi fundamental para o sucesso esportivo do clube em 2019. Aqui temos o outro lado das negociações com os clubes europeus, que fazem movimentações financeiras controlando os efeitos do fair play financeiro na unha, pois punições que os excluam da Champions League custam mais caro que manter a equipe saudável financeiramente.

Importante lembrar que as medições de Fair Play Financeiro são feitas ao final da temporada, que contempla duas janelas de transferência. Por isso também, na janela intermediária (Janeiro) os clubes europeus utilizam como opção de negociações os empréstimos com compra condicionada, pois não podem impactar o balanço da temporada em andamento. Um exemplo foi a transferência de Emre Can da Juventus para o Borussia Dortmund. O valor fixado foi de € 26 milhões, mas foi feito um empréstimo até Junho de 2020 por € 1 milhão, que se transforma em compra a partir de 1º de Julho de 2020 por € 25 milhões.

Esta movimentação ajuda a entender a dinâmica financeira da Juventus. Na semana passada surgiram notícias sobre a “preocupante” situação financeira do clube italiano, que teria problemas por ultrapassar o teto de 70% de gastos com salário na temporada passada, atingindo 71%. Ou seja, apenas 1 ponto percentual acima do limite.

Mas daí entram os aspectos de gestão e controle acionário. Primeiro, o limite de teto salarial é um “limite de referência”, e isoladamente não penaliza o clube. Segundo, justamente pensando em adequar sua estrutura de capitais a Juventus recebeu € 300 milhões em aumento de capital dos acionistas, além de anunciar que precisa realizar vendas de atletas que reduzam em € 40 milhões seus custos anuais (e Emre Can é uma delas). Só um clube empresa é capaz de ter a capacidade de levantar tanto dinheiro, assim como clubes empresas e associações geridas como tais são capazes de realizarem ações adequadas de controle financeiro, desassociadas de pressões esportivas.

Conhecer a dinâmica financeira de um clube de futebol é fundamental para entendermos seu comportamento. Na Europa a imprensa e os torcedores já tem em mente aspectos relacionados aos impactos que violações ao Fair Play Financeiro trazem aos clubes, e mesmo o que ações financeiras agressivas podem gerar ao longo do tempo. Passar a ter esta visão será um passo importante para que torcedores sejam parte dos controles que serão feitos pelo modelo de Fair Play Financeiro brasileiro.

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